sábado, 14 de março de 2009

ENTREVISTA JOSÉ HORÁCIO CIRILO

O entrevistado da vez conheço bem: é meu pai. A apresentação aqui será breve. Ele nasceu em 1948. Meus avós eram portugueses. Ele conta um pouco da vida com as próprias palavras.


FLÁVIA: Conta um pouco da sua história.

JOSÉ: Tive uma infância difícil. Quando eu tinha sete anos, minha irmã mais velha ficou doente - com esquizofrenia. O surto dela me impressionou bastante, me deixou traumatizado. A minha outra irmã também tinha uma doença mental. Eu acho que não fui um bom irmão, nem um bom aluno na escola... Minha juventude foi sofrida...

FLÁVIA: Como foi a época da ditadura?

JOSÉ: Eu era ativista. A gente marcava ponto: o pessoal da esquerda. Eu fui preso por seis dias no DOPS, por ser suspeito de cortar os fios da empresa onde eu trabalhava. Eu sabia que era inocente e sairia em breve dali. Depois disso fui mandado embora. Fiz vestibular pra engenharia e matemática. Meu curso foi feito em vários anos, por conta de complicações psíquicas , mas mesmo assim trabalhei como desenhista-projetista em construção civil. Constituí família e tive duas filhas. Nessa época perdi o emprego e me separei. Fiqeui bastante doente. Fui internado algumas vezes.

FLÁVIA: Como é ser internado?

JOSÉ: Eu não gostava, mas aquilo me melhorava. E só hoje que eu tenho consciência da minha doença.

FLÁVIA: E você tem vergonha da sua doença?

JOSÉ: Tenho porque não sou querido pelas pessoas... Eu sempre li muito. Sempre gostei de ler jornal. Hoje eu escrevo. Fiz o curso do José Castello, quer dizer, peguei umas aulas dele sobre contos e fui fazendo cada exercício. Você podia até publicar um conto meu.

FLÁVIA: O que melhora a autoestima das pessoas?

JOSÉ: É saber que estão fazendo alguma coisa. Sendo úteis.

FLÁVIA: Qual o sentido da vida e o que é ser humano?

JOSÉ: É ser útil fazendo alguma coisa e sendo reconhecido por isso. Ser humano tem a incumbência de cooperar com os outros. As pessoas devem estar conscientes do que estão fazendo no mundo, para fazer algo responsável.




A reflexão

Eu vi um dia, um pássaro pousar numa goiabeira, de maneira sóbria, própria dele. E reparei que bicava uma goiaba com muito gosto.

Para mim aquilo ficou como exemplo de altivez, em se apegar a um objetivo sobriamente - sem ser orgulhoso - e, ater-se com vontade aquilo que se quer fazer.


José Horácio Cirilo
(exercício de redução)





segunda-feira, 2 de março de 2009

ENTREVISTA COM NANCI RODRIGUES


Conheci a Nanci no Fórum Social Mundial 2009 – Rio com vida, que aconteceu em 29 de janeiro no Galpão da Ação da cidadania. Eu estava lá na função de repórter. Ela estava ali sentada, representando a União Brasileira de Mulheres. Resolvi sentar. Acho que nasceu uma nova amizade ali. A morada de Vista Alegre – bairro criado na década de 50 – nos conta um pouco da sua trajetória.

FLÁVIA: Bem...Como vamos começar? Fale um pouco...

NANCI: Sou moradora de Vista Alegre, militante da união dos negros pelo PC do B, fiz faculdade de administração, trabalhava pra poder estudar. A pessoa tem que querer pra alcançar seus sonhos.

FLÁVIA: Você sofreu algum tipo de preconceito e por isso resolveu ser militante?

NANCI: Nunca sofri nenhum tipo de preconceito mas senti necessidade de atuar.

FLÁVIA: Como é o seu bairro?

NANCI: Moro num curral eleitoral, mas isso tá mudando. A comunidade está participando mais. Estamos formando um comitê de transportes: pois não temos transportes funcionando direito no bairro. É provável que a reunião aconteça na Lona Cultural de Vista alegre, pois com a entrada da Jandira está acontecendo uma abertura do espaço para a comunidade atuar e se mobilizar lá.

FLÁVIA: E como funciona a saúde e a educação por lá?

NANCI: O Pan 24 do Irajá está funcionando e não tem mais aglomeração no Pan da Penha(ambos fronteiriços de Vista Alegre). O pessoal lá é muito voltado pra política e denuncia o que tá errado. Hoje em dia os moradores não se vendem mais em troca de promessas políticas. Esse ano de eleição foi muito importante pro bairro. Sobre a educação: o bairro tem colégios de referência, as diretoras são conscientes e direcionam bem o orçamento.

FLÁVIA: conte um pouco da sua história

NANCI: Aos 16 anos, há quarenta anos atrás fui trabalhar como voluntária em um curso de alfabetização para adultos. Tenho história... participei do sindicato urbanitário reenvidicando salários, em 2005 fundamos o grupo de mulheres ação cidadã: prevenção a dependência química. Mesmo sem apoio continuamos e depois fundamos a associação "Eu nasci pra vocês" - casa de apoio ao idoso, criança e adolescente: hoje temos fisioterapia para idosos; o projeto "Proer" - vamos nas empresas e fornecemos mão-de-obra através de nosso cadastro e estamos tentando implementar um projeto de inclusão digital para todas as idades. Nossa idéia é trabalhar com a comunidade para a comunidade. Todos são voluntários. Funciona em Guadalupe( Rua Calama, 86).

FLÁVIA: Nossa! quanta coisa!!! Quanto agito!

NANCI: Além disso, estou montando um projeto de novos talentos. Queremos trabalhar também com meio ambiente, sou membro da ouvidoria da barra. Tudo isso faz com que a gente queira se tornar uma liderança. Eu venho de uma família solidária: herança genética! Quando eu vejo, estou envolvida em vários projetos. Fui candidata a vereadora em 2008 e acabei me envolvendo com o comitê de mulheres. Minha relação com a militância é caso antigo, mas só estou assumindo agora. E olha que onde chego eu sou respeitada! O respeito deve existir em qualquer relação.