quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

ENTREVISTA COM TETÊ PAES LEME

O nome Thereza é em homenagem a Santa Teresa D'Ávila. A mãe estava grávida e recebeu a comunicação de sua mãe já falecida: "a criança será uma mulher trabalhadeira e deverá ser entregue a Santa Teresa D'Ávila!".


Quando a conheci em 2002 não sabia que teria uma amizade de laços estreitos com essa senhora dos cabelos brancos. O encanto dessas história está na sua capacidade de entrega: foi dançarina, formou-se na primeira turma da "Escolinha de Artes do Brasil", foi sócia e coordenadora de Artes da Escola Dinâmica do Ensino Moderno (EDEM), aos 40 anos fez uma formação no "Instituto Rio Abierto" (Buenos Aires) centro de "Terapias Psico –Corporales" para o Desenvolvimento Humano. Nesse mesmo período conheceu a bebida sagrada dos sacerdotes incas - a Ayahuasca, e entregou sua vida ao Santo Daime.


Esse lugar onde vive hoje é mágico: Jardim Praia da Beira Mar. Para inaugurar e desenvolver meu potencial de repórter, recente descoberto por conta do Fórum Social Mundial, pedi a Tetê que contasse um pouco de sua trajetória.

FLÁVIA: Você dançou desde pequena. Como foi parar na escola de arte e por que desistiu da vida de artista?


TETÊ: Fui uma criança muito ativa, só gostava de brincadeiras de ação (descer ladeiras de patins, competições de pular corda, pular em vários desenhos de "amarelinha", patinette, patins bicicleta, pique-cola e etc). Por isso me colocaram no ballet clássico, para gastar energias agitadas. Também via TV pulando na cadeira conforme as emoções do Tom e Jerry. Depois me formei no antigo "Instituto de Belas Artes" do Estado da Guanabara: gravura em metal com Iberê Camargo, técnica de guache com Frank Sheachfer, e com Carlos Scliar desenho. Fui convidada para fazer um curso de especialização em "Arte e Educação" na Escolinha de Arte do Brasil, com Augusto Rodrigues e Noêmia Varela. Desisti de ser artista, porque não queria ter que ficar correndo atrás de pessoas de classe media para comprar minha arte, foi muito melhor ter sido professora de arte, crianças são ótimas professoras da vida, aprendi muito com esta profissão.

FLÁVIA: Como viveu o período da ditadura?

TETÊ: Muito sofrimento decepção, perdas de amigos, muita pressão familiar e muito medo quando as "situações" já estavam enraizadas e dominantes. Aquietei-me de ideais e fui trabalhar com crianças sempre na esperança de poder fazer qualquer coisa com elas que no futuro pudesse garantir a volta da liberdade de pensar, de escolher tanto pessoalmente como coletivamente.

FLÁVIA: Fale sobre o que é ser mãe e como se vê como mãe.

TETÊ: Ser mãe foi uma das mais belas funções que recebi. A graça de ter "parido" naturalmente meus quatro filhos, foi uma experiência transcendental, entendi muito do que é viver. Hoje (com 65 anos) tenho tido a oportunidade de conviver com netos (moramos perto) e observo que muitas das atitudes cotidianas delas estão sendo repetidas com meus netos, logo percebo que alguma coisa deu certo, não é?Também estou tendo a oportunidade de observar o que elas não gostaram e o que reprovaram, pois nosso diálogo é muito bom. Tenho tido a oportunidade de ate pedir desculpas pelos meus erros.

Minha opinião sobre a minha maternidade: Sempre procurei mostrar minhas verdades e motivos por estar agindo assim ou assado embora possa parecer um pouco autoritária ou dona da verdade mas a única coisa que eu tenho para dar honestamente são as minhas verdades.

FLÁVIA: Como foi parar na direção do EDEM ?

TETÊ: Quando minha primeira filha estava com dois anos foi estudar na recém inaugurada escola EDEM,bem pertinho da minha casa. Eram cinco psicólogos e uma administradora(pessoas idealista em busca de transformações para a vindoura geração). No período de adaptação pude observar que o grupo entendia muito de psicologia de pedagogia,mas pouco da nova corrente de Educação pela Arte. Depois de frequentar a escola, para acompanhar a primeira filha com dois anos, observei que as aulas de arte eram muito simples aos meus olhos, pois tinha acabado de me formar nessa área. Resolvi mudar de escola, mas queria apoiar este animado jovem grupo recém formado, gostei deles, então escrevi uma enorme carta justificando tecnicamente o porque de tirar a menina da escola... Para encurtar a estória: eles leram a minha didática carta e foram até a minha casa para me convidar para ser sócia. Foi "a sopa no mel". Foi uma escola muito moderna (para a época), inovamos muita coisa, praticamos os conceitos sociais de liberdade durante o período de ditadura, de saúde mental de firmeza e ligação com um mundo melhor mais democrata. Praticávamos assembleias com alunos, com pais e com professores, estimulávamos a criatividade tanto com alunos como com os professores e dando o maior apoio para apresentar o tema com a preocupação de estimular a indagação, a busca de novas soluções, o convívio democrata na hora das brincadeiras de grupo enfim, colocar em pratica nossas idéias altruístas. Como planejar o conteúdo de uma aula?Qual a maneira mais criativa de apresentar os temas. Queríamos formar pessoas com outros valores dos que os da ditadura militar.

FLÁVIA: Como é educar crianças que não pariu?

TETÊ: Bem mais difícil. Pai e mãe que entregam "seus pimpolhos"!!! AAAAh ! Ás vezes os pais dão mais trabalho do que as crianças! Claro que com muitas honrosas exceções que até ajudam e são participativos. Mas só tenho boas lembranças desta época. Acho que deu certo. Tenho visto muitos artistas, executivos, gente bem sucedida enfim gente “bonita interiormente" na vida adulta hoje.

FLÁVIA: Você vem de uma família espírita, não é? Sua fé é uma fortaleza. De onde vem essa força?

TETÊ: Não sei bem... Será do tempo de vida já vivida?(idade) ou das ricas experiências que a vida me proporcionou? Provavelmente por ter sido criada numa família de "batalhadores" de seus ideais cristãos ou já veio comigo de outras vidas, não sei e nem sei se é assim tão forte.

FLÁVIA: Fale sobre a formação no "Rio Abierto" como conheceu o Santo Daime e por que dedicou sua vida a esse caminho?

TETÊ: Conheci o "Rio Abierto" através do grupo de dança "Coringa" dirigido por Graciela Figueroa (quando voltei a dançar aos 40 anos). Fui indo cada vez mais fundo na busca do meu autoconhecimento. Entreguei-me a esta árdua tarefa autotransformação. Fiquei fascinada por tudo que me levasse às clarezas interiores que eu estava buscando para o meu melhoramento como ser humano. Uma colega de trabalho comentou comigo(por acaso) sobre um amigo que tomava ayuasca(bebida preparada e consumida em ritual durante cerimônias religiosas que ingere esta bebida enteógena desde o tempo dos incas). O chá é produzido e consumido em rituais para se conectar diretamente com o Divino e alcançar o entendimento de todos os planos da sua vida aqui/agora, a saúde de todos os nossos corpos: corpo físico, nossa alma e nosso espírito, com o propósito de se auto desenvolver e adquirir o seu próprio auto conhecimento em todos os níveis de compreensão alem do simples provisório corpo físico em encarne pode alcançar. Entrei em contato com o grupo de pessoas do Santo Daime no Rio de Janeiro em 1986 e me entreguei completamente a vivenciar e praticar a Doutrina do Santo Daime ate hoje. Dediquei a minha vida a esse caminho por ter achado um método que me clareia a mente para eu poder perceber e corajosamente buscar as minhas verdades interiores: "Quanto mais puxar por mim mais eu tenho pra te dar", assim aprendi com o Santo Daime e assim procuro praticar ate hoje.

FLÁVIA: Hoje você é a responsável feminina da Igreja do Santo Daime no Jardim Praia da Beira Mar. Consegue traçar um paralelo entre dirigir um colégio e dirigir um centro de desenvolvimento espiritual?

TETÊ: Dirigir um colégio está voltado para a formação de uma personalidade produtiva útil e educada para a sociedade. Dirigir um Centro Espírita através de um enteógeno é desenvolver profundamente você interiormente por você mesma em parceria com o Divino por seu próprio método e por você com você mesmo fazendo a conexão com a sua própria divindade interna que é estar aqui, em carne por um tempo em busca deste aperfeiçoamento evolutivo próprio e da nossa humanidade.

FLÁVIA: O que você diria às pessoas que estão buscando um caminho espiritual?

TETÊ: Busquem incansavelmente, assim como procurar uma agulha num palheiro, experimente vários caminhos ate se identificar e surgir de dentro do seu "eu superior" a clareza para se engajar tendo absolutamente certeza que achou!!! Respeito todos os caminhos. Procure até achar, experimente, não idealize nem critique e nem se incomode com o que os outros falam disso ou daquilo, que é assim ou assado, apenas analisem suas necessidades interiores e experimente os rituais em busca do divino até um dia achar uma identificação intuitiva com algum caminho que busque o bem, o progresso da nossa raça humana e o nosso crescimento iluminado para um mundo novo, nesta nova era que esta se iniciando.

Adorei responder, há tanto tempo eu não pensava no porque fiz estas escolhas. Muito sucesso no seu Blog. Conte comigo. PAZ! tt

Um comentário:

  1. Flavinha, adorei a entrevista, foi muito produtiva!! Adorei conhecer um pouco mais da vida da Madrinha Tetê.
    Vou esperar anciosa a próxima entrevista! rs
    Sucesso, sempre!! Parabéns!!!
    bjs,
    Stephany

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